quinta-feira, 10 de julho de 2008

Entrevista com Juliana Manhães - Três Marias

retirado do blog: http://guerrilhaaberta.blogspot.com/

Nessa décima edição da revista Guerrilha Aberta, trouxemos uma artista que dispensa qualquer apresentação: a artista popular da dança, do teatro, da música, do canto e da batucada. Atriz, dançarina e arte educadora, que coordena o núcleo As Três Marias, Juliana Manhães. Ela vai nos contar um pouco sobre o rico universo das culturas populares do Maranhão e do Rio de Janeiro. Já que ela nasceu no Maranhão e mora no Rio de Janeiro, há pelo menos 15 anos, mas vive num processo continuo de idas e vindas para o Norte e Nordeste, para não perder o sentido de intercâmbio e da troca com outros grupos e mestres da arte e da vida, como ela mesma conta: "Acredito na diversidade e integração, e que a partir destes movimentos desenvolvo trabalhos com pesquisas em brincadeiras e histórias brasileiras, seja na rua, no palco, em roda e praças".

Sentiu, né?
Com vocês: Juliana Manhães!!!


Guerrilha Aberta: O que é As Três Marias - Núcleo de Folguedos Brasileiros? Quando começa e o que faz hoje? Quantas pessoas formam o grupo?
Juliana Manhães: As Três Marias é uma história interessante, lembro bem do dia que subia a rua Cândido Mendes para chegar em Santa Teresa e estava animada e cantante com mais duas mulheres do Maranhão, Ana Neuza, Joana e um inspirado amigo artista plástico, Fernando Mendonça, que começou a criar uma música que falava de três mulheres que saíam para vadiar e nesta “mulecagem” surgiu este nome e marca de três mulheres. Tempos depois voltando do Maranhão trazia uma parelha de tambor de crioula e no ato de batismo de três tambores ficou As Três Marias, inicialmente virou um lugar de reunir para tocar, dançar, brincar e reviver o Maranhão no Rio, este movimento começou em 1998, quando ainda nos chamávamos de Divina Corriola e brincávamos com a dança do cacuriá. Este movimento fez com que descobríssemos uma grande concentração de maranhenses e emaranhados na cidade do Rio. Começou com a ocupação do Largo das Neves em Santa Teresa e daí se alastrou para outras praças, levamos altar, rezadeiras, caixeiras, juntamos outros grupos como o Boi Brilho de Lucas, Céu na Terra e o Mariocas e começamos a fazer festas e danças do Maranhão e do Rio de Janeiro.
Da festa veio a necessidade de encontrar mais, ensaiar e criar músicas e coreografias autorais com o tambor e o cacuriá, hoje estamos misturando com outras linguagens como o teatro e outros ritmos. Fazemos festas, brincadeiras, intercâmbios com mestres do Maranhão e outros folguedos brasileiros. Estamos em momento de reciclagem, fizemos curso de máscara com o grupo Moitará e aulas de canto com uma pessoa muito especial, Alba Lírio, para amadurecer nosso trabalho e a gente retomar os ensaios do musical Balaio de Saias.

GA: Você é do Maranhão e já vive no Rio de Janeiro há algum tempo. Qual a principal diferença que você percebe entre as culturas populares de cada região do Brasil?
Manhães: O que une e o que integra essas culturas é a necessidade de estar alegre, de festar junto, é a crença nos rituais, é a certeza do movimento constante, daí a importância do ciclo das festas de cada cidade e comunidade. E dentro destas celebrações acontece uma rede de trocas e vivências fundamentais para a sobrevivência dessas pessoas. A diversidade faz a força em cada região, porque uma brincada de boi, de maracatu, de carimbó ou um festejo de Divino tem a sua riqueza nesse estilo da diferença. Nesses dias acabei de voltar de uma viagem que fiz pelo interior do Maranhão, na Baixada e pude perceber o quanto cada turma de boi de cada cidade e povoado que passei, era diverso do outro, então não sinto uma principal diferença, mas é essa diferença que traz a identidade de cada lugar, o seu jeito de tocar, de dançar, de vestir e de ir se transformando.


GA: Quantos e quais tipos de dança o nordeste têm e quais são as mais importantes?
Manhães: Nossa são muitas...é dança em roda, é dança de cordão, é dança de umbigada, é dança de saudação, é dança religiosa, é dança de danação. Cada uma com seu critério e fundamento, é até difícil dizer...isso me faz lembrar de meu mestre cazumba Abel “Quanto mais a gente explicar mais vai perdendo a noção da coisa...” Agora tem algumas manifestações que dominam o cenário nacional, que existe de ponta a ponta do Brasil acontecendo no período natalino e junino como o boi, bumba-meu-boi, boi-bumbá, cavalo-marinho ou reisados, além de variados festejos religiosos. É tanta influência que o próprio nome já aponta: carimbó, siriá, lundu, marabaixo, maracatu, frevo, coco, afoxé, ciranda, cacuriá, tambor de crioula, lêlê, lili, caroço, congo, bambaê e todos são muito importantes. Agora tem os mais conhecidos ou os mais aceitos, mas isso já é uma outra história.


GA: Você atualmente, está realizando um mestrado. Qual o tema que você está pesquisando e qual será o resultado final dessa pesquisa?
Manhães: Faz 8 anos que venho vivenciando e experenciando brincar de cazumba no boi da floresta com mestre Apolônio em São Luís; e desde o ano passado, através do forte estímulo do orientador Zeca Ligiéro do NEEPA na UNIRIO, resolvi registrar estas vivências e observações trazendo outros sentidos para minha atuação dentro da brincadeira do boi. O tema da pesquisa é a performance do cazumba na roda do boi, percebendo sua dinâmica de movimentação e relações com os outros personagens e o público, e o jeito desse encaretado em divertir e assustar com seu jogo e seus compromissos com os rituais que fazem parte do ciclo festivo. Para isso o fio condutor, meu guia desde o primeiro momento é Abel Teixeira, artesão e cazumba que veio do povoado de Santo Inácio na baixada para capital São Luís e foi se tornando um grande artista na arte de fazer careta. Esta pesquisa é também uma homenagem aos 50 anos de cazumba de Abel e aos 90 anos de vida de Apolônio, meus mestres e guias. Uma maneira de agradecer e engrandecer a vivência para a escrita e a memória.
O resultado final é o desejo de conseguir escrever e traduzir essas relações da brincadeira com o brincante, de forma narrativa, etnográfica e interessante, isso acontecendo o que vier é lucro. Já tenho feito registros fotográficos e documentado depoimentos e cenas da brincadeira, além de rituais do boi da floresta e de algumas turmas de boi da baixada maranhense. Na hora de juntar tudo e selecionar alguma coisa vai virar...


GA: Nesse primeiro semestre, você realizou uma oficina de danças populares que foi o maior sucesso e para o segundo semestre, qual o calendário de atividades que o núcleo das Três Marias têm? Entre festas, cursos e eventos...?
Manhães: A Roda dos Brincantes Festeiros é uma oficina que vai se transformando e renovando e foi uma delícia fazer um processo continuado de 1 ano toda a semana, permitiu experimentar, estudar, juntar, misturar técnicas, dinâmicas, trocar muitas idéias até chegar em uma metodologia in progress cheia de aberturas e possibilidades. A oficina permitiu o reencontro com a parceira Matilde Vilella e o intercâmbio com vários grupos e artistas que participaram como o grupo Paideguará, Lucio Enrico do Boidaqui, Ana Diniz, Norma Nogueira do Céu na Terra, o percussionista Borracha das Três Marias, e foi um processo agregador de reunir, de guarnicê.
No segundo semestre pretendo fazer oficinas mais pontuais, dividindo em módulos, mas como a demanda do mestrado é grande, ele é que vai mandando no meu tempo, então ainda não sei exatamente quando será a próxima, talvez no final de julho no espaço do Recordatório. As Três Marias estão voltando a ensaiar o espetáculo musical Balaio de Saias e vem querendo fazer pesquisas com lendas para a criação de performances e intervenções, misturando canto, teatro, dança e música.

GA: Para você, o que é ser artista no Brasil?
Manhães: É fazer parte de um lugar muito criativo onde a precariedade reina e faz brilhar. O carnaval é um grande exemplo disso! Somos muito inspirados e a necessidade de fazer arte e recriar é veloz, não acompanhando ao tempo da falta de recursos e de espaços. Infelizmente no Brasil há muito pouco mercado e políticas para a cultura e nós artistas precisamos aprender a cavucar a reinventar este lugar para não somente sobreviver, mas realizar um trabalho com dignidade e qualidade. Hoje em dia além de precisarmos ser criadores de nossa arte, temos que saber escrever e administrar infindáveis projetos para serem aprovados e assim conseguirmos trabalhar. Ser artista é maravilhoso o difícil é ter coragem e determinação para ser profissional da arte. Mas como todo brasileiro temos muita fé e esperança e por isso acreditamos e vamos em frente na realização e concretude de nossos desejos!